Vivemos um tempo em que muitos adultos estão cansados, sobrecarregados com suas preocupações do dia a dia e por vezes em dúvida sobre como agir na educação dos filhos.
Ao mesmo tempo, vemos crianças cada vez mais sensíveis às frustrações, impacientes, cruzando limites do que é certo para sua idade, inseguras ou imaturas diante das situações do cotidiano.
Não é que esta realidade presente hoje na infância, deva ser rotulada como “crianças problemáticas”, porque primeiro devemos saber que as crianças estão aprendendo a lidar com aquilo que faz parte do desenvolvimento emocional: saber perder, esperar, errar, escutar um “não”, sentir medo, frustração, insegurança e raiva.
Talvez uma das perguntas mais importantes ressoando nas famílias seja: Como proteger meu filho, minha filha sem ser super-protetor e com isso impedir que se fortaleçam?
Refletindo um pouco mais...
Quantas vezes tentamos aliviar rapidamente o desconforto, o choro da criança, sem perceber que agimos também tentando aliviar o nosso próprio desconforto diante da emoção exposta seja para calar o choro, abrandar a birra, enfim acabar com a situação.
A emoção ativada da criança, pode nos inquietar, ativar sensações desconfortáveis em nós: Porque o choro da criança pode despertar culpa. A frustração pode despertar impotência.
A raiva da criança pode despertar sensação de que falhamos. E o medo da criança frequentemente ativa a ansiedade em nós, adultos.
Muitos pais leêm, pesquisam e buscam construir relações mais acolhedoras com os filhos. Mas, ao mesmo tempo, acabam se perdendo entre diferentes sugestões, diálogos incompreensíveis para as crianças ou excessos de explicações, esperando muitas vezes compreensão emocional da criança que ainda não se instaurou em sua tenra idade.
A criança pequena ainda não possui maturidade emocional para entender, elaborar e organizar tudo aquilo que sente. Antes de conseguir compreender plenamente suas emoções, ela primeiro sente no corpo, reage, se desorganiza e vai, aos poucos, aprendendo a transformar sensações em sentimentos nomeados, aprendidos e compreendidos. Em muitas situações o comportamento da criança é uma forma de comunicação emocional.
Nós adultos devemos funcionar diante dos filhos como reguladores do “seu emocional”. A criança não nasce sabendo se acalmar sozinha. Ela aprende vivendo experiências com os adultos que convivem e cuidam dela.
Antes de saber se reorganizar internamente, ela “empresta” a reação, os sentimentos do adulto próximo de si. Por isso, o tom de voz, a previsibilidade, a presença emocional, o olhar e a estabilidade do adulto impactam diretamente na forma como a criança aprende a lidar com suas próprias emoções.
Existe diferença entre sofrimento e desconforto, e nem todo desconforto é sofrimento.
Esperar é desconfortável. Perder é desconfortável. Frustrar-se é desconfortável. Ouvir um “não” é desconfortável. São justamente pequenas frustrações acompanhadas de um adulto equilibrado que ajudam a criança a desenvolver tolerância emocional, autonomia, segurança interna e confiança em si mesma.
Quando o adulto resolve tudo rapidamente, interfere o tempo todo ou evita qualquer frustração, a mensagem involuntária dada para a criança pode acabar sendo: estou resolvendo porque “você não dá conta.”
Enquanto o mais importante talvez seja transmitir: “eu estou aqui, posso te ajudar se você precisar, enquanto você aprende...”
As famílias trazem angustias quando dialogamos aqui na Escola CDI Santa Maria e dentre elas destacamos algumas significativas: dificuldade de sustentar limites; culpa parental; excesso de intervenção; crianças no meio dos conflitos dos adultos; ansiedade pela adaptação escolar; explosões emocionais; medo de frustrar os filhos e dificuldades em tolerar a queixa e o desconforto infantil.
Entendemos que aí reside a “escuta” real e sincera dos pais em relação aos seus filhos, com interlocuções: “O que você pensa sobre isso?” “O que você sentiu?” “O que você pensou em sua cabeça?”
Sem querer ou para facilitar a vida dos filhos, acabamos por dar respostas pelas ou para as crianças, explicando excessivamente situações ou ocupando espaços emocionais que poderiam ser construídos pela própria criança através da experiência, da reflexão e da simbolização, permitindo que elas experimentem pequenas negociações, esperas, combinações e tentativas de resolução, mesmo que leve um pouco mais de tempo.
A mediação do adulto é importante, mas nem toda dificuldade precisa ser imediatamente eliminada. Desenvolver emocionalmente uma criança não é apenas ensinar comportamentos. É ajudá-la a construir recursos internos para existir no mundo.
E quando o filho, a filha se vê diante de desavenças e conflitos entre os adultos. A criança percebe o clima emocional mesmo quando ninguém fala diretamente sobre ele. Ela percebe os semblantes, as tensões, afastamentos, ironias, inseguranças e mudanças emocionais dentro da família, qual será sua sensação, emoção, sentimento?
Nenhuma família está isenta de vivenciar em algum momento, estas realidades, sendo importante transmitir aos filhos que podem diante do que não entendem continuar seguros, diante do erro continuar sendo amados; diante da frustração não ficar desamparado, diante da necessidade e do difícil pode pedir ajuda sem se sentir incapaz.
Aos pais cabe saber que não existe parentalidade perfeita; não existe infância sem frustração e não existe desenvolvimento emocional sem desconforto. Mas existem, sim, adultos que conseguem refletir sobre o que constroem na relação com a criança — e isso transforma profundamente o desenvolvimento emocional infantil.
A família, com pequenos movimentos cotidianos farão grande diferença no fortalecimento de seus filhos: conseguir esperar um pouco antes de intervir; validar antes de corrigir; sustentar limites com mais calma; permitir pequenas frustrações; confiar mais na capacidade emocional da criança.
Porque desenvolver uma criança emocionalmente forte não é evitar que ela caia.
É permanecer presente enquanto ela aprende a se levantar.
O presente texto foi construído a partir do material desenvolvido para a Roda de Pais de 28 de maio de 2026 e ampliado com as reflexões surgidas durante o encontro. As questões abordadas refletem temas frequentemente presentes na experiência das famílias da comunidade escolar, constituindo um espaço de escuta, troca e construção coletiva sobre o desenvolvimento emocional das crianças e o papel dos adultos em seu processo de crescimento.